26 fev 2015

Refém das estradas

Greve dos caminhoneiros atinge 9 estados e já afeta abastecimento de alimentos. Eles reclamam do baixo frete e da alta do diesel e do pedágio

Por Ricardo Hammoud

O Brasil assiste a uma longa greve de caminhoneiros que paralisa o transporte, as estradas e os portos em diversos estados do Brasil. Em um país que depende quase totalmente do transporte rodoviário de cargas, essa é uma péssima notícia. Embora os grevistas não tenham uma pauta unificada, as principais reivindicações dizem respeito ao valor do frete, ao aumento do diesel e aos pedágios.

Como o país chegou a essa situação? Esse é o resultado de uma gradual e acelerada deterioração da economia brasileira que vem sendo construída desde o início dessa década. O principal problema é a inflação. Esse fenômeno perverso que corrói a renda de todos nós, mas que afeta principalmente os trabalhadores de baixa renda. A volta da inflação não foi uma consequência de mudanças externas, e sim um resultado previsível de diversos erros de política econômica.

A pauta dos caminhoneiros é similar à dos empresários, profissionais autônomos e dos trabalhadores em geral. A renda sobe pouco, os preços sobem mais rápido e, portanto, o poder de compra cai. Essa queda não é uniforme, pois embora a inflação seja um aumento geral do nível de preços, os preços não sobem simultaneamente. Isso causa o que os economistas chamam de distorção dos preços relativos, ou seja, com a aceleração da inflação, em um dia o produto “A” está mais caro que o produto “B” e no dia seguinte o produto “B” fica mais caro que o produto “A”. Isso faz com que o consumidor fique perdido e não tenha uma noção dos preços relativos de cada produto ou serviço.

Os caminhoneiros veem seus insumos (diesel e pedágio) aumentar e não conseguem repassar esse aumento para o valor do frete. Isso ocorre porque pedágio e diesel são inelásticos em relação ao preço. Como são produtos e serviços sem substitutos, um aumento do preço causa queda menor na demanda. Já o serviço dos caminhoneiros é elástico, pois cada caminhoneiro oferece um serviço similar aos demais. Um aumento do preço do frete causaria uma diminuição na demanda pelo transporte.

Dada essa situação, o que se deve fazer ? Primeiramente, as empresas devem perceber que a dependência de um único modal (o rodoviário) para o transporte de cargas é extremamente danosa. A diversificação e o investimento privado em outros modais se provam cada vez mais urgentes. Além disso, os caminhoneiros devem se juntar ao coro daqueles que pedem uma mudança na política econômica: com menor gasto do governo, corte nos impostos e aperto monetário para trazer a inflação de volta à meta. Finalizando, os caminhoneiros poderiam ser ainda mais ousados e realizar uma greve em favor da privatização da Petrobras, das estradas e dos portos. Fica a dica!

 

 

Prof. Ricardo Hammoud é doutor e mestre em Economia pela UFRGS e coordenador do curso de Administração da STRONG ESAGS Santos.

1 comentário

  1. fernando disse:

    Verifique quanto aumentou a gasolina e o diesel (em %),nos mandatos do pt, e sera mais um item para que a população entenda que esta grave é ligitima,e que dá para abaixar o preço do Diesel, pois tem muita gordura nesse preço.

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