25 set 2015

Olimpíadas 2016: erros e acertos

Um problema visível de falta de gerenciamento é a despoluição das águas da Baía de Guanabara, que a um ano dos jogos continua com um nível de poluição inaceitável

É importante garantir a mobilidade na cidade do Rio de Janeiro, assim como em outras cidades brasileiras

Há um ano das Olimpíadas 2016, ainda há questões preocupantes que podem prejudicar o andamento da competição no Brasil. De acordo com Álvaro Camargo, consultor em gerenciamento de projetos e negócios, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e autor do livro, em parceria com Júlio Schwartz, “Manual de Projetos Infraestrutura e Engenharia”, o grande desafio, sem dúvida alguma, são os projetos relacionados com mobilidade.

Andrei Augusto Passos Rodrigues, secretário extraordinário de segurança para grandes eventos do Ministério da Justiça – Sesge -, afirmou que no dia 12 de agosto de 2016 terão 70 competições simultâneas acontecendo no Rio de Janeiro, que representam cerca de 30 mil deslocamentos apenas num dia. “Como garantir transporte público de qualidade com essa quantidade de deslocamentos numa cidade como o Rio de Janeiro?”, questiona Camargo.

Além disso, existem as obras de mobilidade em outras cidades brasileiras, muitas das quais estavam prometidas para a Copa de 2014, e a questão dos aeroportos. “É evidente que a prioridade dos projetos de mobilidade está na cidade do Rio de Janeiro, que por si só já é um desafio grande. Mas as outras cidades brasileiras também são importantes na medida em que devem receber um grande fluxo de turistas, boa parte dos quais vai querer conhecer outras cidades, além do Rio de Janeiro. Se não tivermos uma boa infraestrutura de aeroportos e de transporte público, é certo que não deixaremos uma boa impressão para os visitantes. O problema todo está centrado no fato de que não existe um gerenciamento efetivo desses projetos que apresentam sinergia entre si. A responsabilidade e a coordenação das obras de mobilidade nas diversas cidades brasileiras estão espalhadas em diferentes esferas de governo. E nem sempre as esferas de governo apresentam condições de elaborar bons projetos básicos que permitam a licitação das obras”, explica o consultor.

Para o professor, temos ainda o problema de financiamento. “O governo federal admite a dificuldade de obter financiamento para os projetos na atual situação de ajuste das contas públicas. Resumo da história: deficiências na gestão dos projetos somados a uma situação de dificuldades econômicas constituem uma combinação problemática”.

Obras

Segundo Camargo, hoje em dia é comum que os contratos de construção exijam das empreiteiras contratadas métodos adequados de planejamento, monitoramento e controle daquilo que foi contratado. “No caso específico das obras para as Olimpíadas, o Brasil tem empreiteiras que, embora possam estar envolvidas com problemas de corrupção, são empresas competentes no tocante a gerenciar obras. A capacidade das empreiteiras de gerenciar adequadamente os projetos não constitui preocupação. O que constitui preocupação é a qualidade da gestão dos projetos pelo Poder Público. Fazer uma Olimpíada envolve não apenas executar obras. A organização dos jogos envolve, diversas entidades, como por exemplo, a Autoridade Pública Olímpica (APO), a Empresa Olímpica Municipal do Rio de Janeiro, o Ministério do Esporte e o Comitê Olímpico Internacional, entre outras”.

Para ele, um problema visível de falta de gerenciamento é a despoluição das águas da Baía de Guanabara. Estamos a um ano dos jogos e a Baía continua com um nível de poluição inaceitável. Tenho dúvidas se isso será resolvido de forma satisfatória num prazo tão curto, já que envolve a coordenação de muitas partes interessadas. Além disso, temos os projetos relacionados à segurança do evento, que é certamente um ponto nevrálgico”.

São três os conjuntos diferentes de projetos relacionados com as Olimpíadas. “O primeiro são os projetos necessários para que o evento ocorra. Isso inclui a construção das instalações esportivas, a vila olímpica e o aparato de segurança dos participantes dos jogos. Outro conjunto de projetos é aquele relacionado com a infraestrutura necessária para aqueles que visitarão o Brasil por causa do evento. Isso inclui as obras de mobilidade urbana, aeroportos e oferta de acomodações em hotéis. Finalmente, temos o projeto olímpico brasileiro, que está sendo tocado pelo Comitê Olímpico Brasileiro e cujo objetivo é fazer com que o Brasil esteja entre os principais países em quantidade de medalhas. Esse último projeto, pelas informações que tenho recebido, está indo bem. Um exemplo disso é a contratação a estrategista Kristin Collins. Ela é uma profissional contratada pelo COB para monitorar os atletas brasileiros em tempo real. Sua função é compilar dados estatísticos a partir de gravações em vídeo dos atletas. Com base nisso irá fazer análises estatísticas das competições, de forma a orientar os técnicos e os atletas da equipe brasileira. Não me lembro que a equipe brasileira tenha tido esse tipo de recurso anteriormente. Isso realmente é uma evolução”, afirma o consultor.

 

Sobre Álvaro Camargo

Profissional com 35 anos de experiência na área de gerenciamento de projetos e negócios. É mestre em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com foco de pesquisa em capacidades dinâmicas e gerenciamento de projetos e MBA em Administração de Projetos pela Fundação Instituto de Administração da USP. É graduado em Ciências da Computação pela Universidade Paulista e é certificado como PMP – Project Management Professional pelo Project Management Institute. Atuou em projetos de grande porte nas áreas de energia, indústria, petroquímica e outras. É docente dos cursos de MBA na Fundação Getulio Vargas. Também ministra aulas em cursos de pós-graduação na Brazilian Business School, na UNICAMP e no curso de MTA em Agronegócio da Universidade Federal de São Carlos. Possui experiência internacional com participação em projetos e cursos nos Estados Unidos, Japão, Angola, Argentina e Colômbia. Atualmente tem três livros e diversos artigos publicados em revistas cientificas.

 

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