12 mar 2013

O mercado promissor da energia elétrica

Mudanças impostas pelo Governo Federal valorizam especialistas com capacidade de gestão estratégica com foco regulatório

Os consumidores residenciais e os de alta tensão pagarão este mês menos 18% e 32%, respectivamente, pela conta de energia elétrica. O benefício é resultante da Lei 12.783/2013, que promoveu a renovação das concessões de transmissão e geração de energia que venciam até 2017, e das medidas provisórias 591/2012 e 605/2013.

As geradoras e transmissoras terão um grande desafio pela frente: adequar-se a uma nova realidade de Revisão Tarifária, uma vez que as receitas serão reajustadas a cada cinco anos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

O momento é de adaptação das empresas e qualificação de profissionais da área, indicam o consultor, Diogo Mac Cord de Faria, e Fabiano Coelho, coordenador acadêmico do MBA do Setor Elétrico, da Fundação Getulio Vargas, curso que estreia este semestre na conveniada STRONG. “Os especialistas na área precisarão, obrigatoriamente, entender o contexto técnico, regulatório e financeiro de toda e qualquer decisão tomada pelas empresas. Não existe mais estratégia sem o pensamento regulatório. Se eles precisavam andar juntos, agora, devem virar uma coisa só”, garante Diogo.

Na entrevista abaixo os especialistas analisam o setor, o perfil do futuro profissional e sugere quais conhecimentos serão imprescindíveis para o sucesso na carreira e das empresas.

Diogo Mac Cord de Faria, consultor no setor elétrico

A partir dessa decisão do Governo Federal, como as empresas terão de se reorganizar?
Diogo Mac Cord de Faria: As alterações propostas pela antiga MP 579, atual lei 12783, terão um enorme impacto em todas as concessionárias. As geradoras e transmissoras terão um grande desafio, o de se adequar a uma nova realidade de revisão tarifária, onde as receitas serão reajustadas pela ANEEL a cada cinco anos. As distribuidoras acabaram de passar por uma revisão tarifária extraordinária para reconhecer os novos custos da Parcela A, e assumirão, a partir de agora, o risco hidrológico que deverá ser componente tarifário, podendo onerar o consumidor final.

Haverá mudanças no quadro funcional, como contratação de especialistas?
Diogo: O reconhecimento contábil destas transações, aliado ao novo conceito de gestão de ativos que elas precisarão vivenciar, principalmente, no que se relaciona às decisões de investimento e manutenção, requer profissionais altamente especializados e que obrigatoriamente precisarão entender, a partir de agora, o contexto técnico, regulatório e financeiro de toda e qualquer decisão tomada pelas empresas. Não existe mais estratégia sem o pensamento regulatório. Se eles já precisavam andar juntos, agora, mais do que nunca, viraram uma coisa só.

Muito se tem falado sobre a carência de profissionais qualificados, em diversos setores. Isso inclui a área de energia elétrica?
Diogo: O setor tem muita gente boa, mas faltam profissionais que consigam enxergar além de suas funções tradicionais. O engenheiro que não entenda como aquele transformador imobilizado será remunerado, e se será remunerado, não é completo em seu papel, pois pode tomar uma decisão incorreta na manutenção dos equipamentos. O advogado que cuida de recursos protocolados junto à ANEEL sem entender todo o arcabouço regulatório setorial corre grandes chances de ser inócuo em seu pleito. Ou seja, as decisões devem, obrigatoriamente, considerar o impacto além de suas funções, pois a ANEEL enxerga tudo como uma coisa só e as empresas devem adotar esta visão em seu dia a dia.

Como você avalia a área de energia no Brasil? Podemos dizer que as regiões Sul e Sudeste são os maiores polos de trabalho?
Diogo: Estas regiões possuem grandes empresas, mas todo o Brasil está observando um movimento favorável ao setor. No Nordeste vemos grandes fazendas eólicas, no Norte surgem grandes usinas e em todo o País grandes linhas de transmissão. Ou seja, considerando que a sede da maioria das empresas com ativos no norte e no nordeste estão, sim, no eixo Sul-Sudeste, há excelentes oportunidades no Brasil. Sem dúvida o mundo inteiro quer bons profissionais. No entanto, o cenário regulatório brasileiro é bastante diferente daquele encontrado nos Estados Unidos, por exemplo. Nosso modelo se aproxima mais do inglês e francês, daí a necessidade da especialização local.

Fabiano Coelho, coordenador do MBA do Setor Elétrico, na STRONG

Qual deve ser o perfil desse especialista para o sucesso na carreira profissional?
Fabiano Coelho: O especialista interessado nesta nova realidade deve saber que, obrigatoriamente, precisará aprender, além de sua formação original, conceitos técnicos. Os contadores precisarão entender os padrões construtivos da rede; os administradores de contas contábeis; e os engenheiros conhecerem de direito regulatório. Claro que ninguém vai virar um especialista em cada uma destas áreas, ao contrário, o que se busca é a especialização setorial. E, para isso, é necessário aprender um pouco de tudo.

Quais conhecimentos os especialistas levarão para as companhias?
Diogo: Darão um cadenciamento coerente às atividades amarrando os diferentes departamentos das concessionárias e fazendo todos falarem a mesma língua. Como eu disse anteriormente, se um engenheiro não sabe que um transformador em fim de vida útil não é mais remunerado e insiste reparar o equipamento que já está 100% depreciado, ele terá um desembolso que jamais será reconhecido via tarifa. E pode ficar com um equipamento antiquado na rede que causará mais interrupções (com consequentes multas pelos indicadores DIC e FIC dos consumidores ligados neste transformador) e não colaborará para a renovação de sua rede.

Defina claramente que profissionais a participação no MBA torna-se indispensável?
Fabiano: Para quem trabalha com regulação, e altamente recomendável para todos os profissionais do setor que desejam se tornar formadores de opinião dentro de suas respectivas empresas. Sem este conhecimento, as chances de crescimento se limitam.

Em que áreas o especialistas do setor elétrico podem atuar? É preciso ter experiência anterior?
Diogo: Em absolutamente todas. Para ter uma ideia, as turmas do MBA do Setor Elétrico da FGV em Curitiba e Florianópolis eram compostas por prestadores de serviço e fornecedores de máquinas e equipamentos do setor elétrico. Eles estão interessados nos rumos do setor para decidir como atender as concessionárias em um novo contexto regulatório. Os concessionários e comercializadores, que representam cerca de 70% dos alunos matriculados, enviam profissionais dos mais diferentes departamentos para buscarem esta visão macrosetorial. Por isso é interessante que tenham vivência no setor, pois conhecendo uma das pontas do processo, fica mais fácil amarrar o conhecimento das demais.

Com o mercado tão ativo, até quanto um profissional com essa especialização pode aumentar o salário?
Diogo: Depende muito da função que este profissional já ocupa. Mas, certamente, as chances de promoção são muito maiores – um gestor que tenha esta visão “fora da caixa” colaborará para o crescimento da empresa. Vivemos uma tendência de forte consolidação e apenas as mais eficientes sobreviverão. Então, para algumas concessionárias não falamos nem em crescimento e sim em sobrevivência. Este, sem dúvida, seria um grande argumento para os profissionais que possuam esta capacidade de gestão estratégica com foco regulatório.

Podemos considerar o MBA do Setor Elétrico, da FGV, como pioneiro no Brasil?
Fabiano: Com esse contexto regulatório, que engloba geração, transmissão, distribuição e comercialização podemos dizer, sim, que este é um curso pioneiro no país. Isso porque houve um cuidado na seleção das disciplinas para apresentá-las de uma forma sequencial e lógica aos alunos. Por exemplo, o “Modelo Institucional do Setor Elétrico” e “Planejamento e Matriz Energética” vem antes de disciplinas como “Distribuição de Energia” ou “Transmissão de Energia”, para que o aluno primeiro entenda o contexto setorial para depois partir para as matérias específicas. Mas todas as disciplinas, até mesmo “Gestão de Pessoas para o Setor Elétrico”, foram desenhadas para que tivéssemos uma abordagem bastante direcionada aos profissionais do setor.

Dê exemplos práticos do diferencial desses especialistas em uma empresa.
Diogo: Um assunto que está em alta no setor é o Smart Grid ou “Redes Elétricas Inteligentes”. É a revolução técnica do setor elétrico: redes automatizadas, consumidores acompanhando on-line seus gastos, preços da energia que variam ao longo do dia e que podem possibilitar o carregamento automático de carros elétricos de madrugada, quando o preço estiver mais barato. Algo incrível. Mas quanto isso custará, e quais os retornos financeiros que esta revolução trará à tarifa? O brasileiro estará disposto a pagar por tudo isso?

E qual a resposta?
Diogo: Depende dos benefícios e de quanto for a conta. A concessionária fluminense Ampla, por exemplo, vivia um cenário catastrófico de furto de energia. Por meio de uma medição eletrônica avançada, conseguiu controlar suas perdas. Investiu mais de 1 bilhão de reais, o que assustou muita gente. Mas conseguiu ir à ANEEL e comprovar que, apesar do alto custo, o retorno seria tão grande que a tarifa iria, no final das contas, diminuir. E chegou essa conclusão valendo-se de profissionais altamente especializados e com conhecimento de causa. Em nosso cenário regulatório, onde o CAPEX é 100% reconhecido e onde o OPEX é dado como preço-teto e as perdas obedecem a fórmulas regulatórias, é fundamental olhar a concessionária de cima, em uma visão macro. Enquanto a Ampla investiu, compartilhou seu ganho com os consumidores e a tarifa baixou. Ou seja, ela ganha mais e o consumidor gasta menos. Outras concessionárias, que vivem em um cenário de perdas comerciais próximas a 50%, insistem no discurso de que o problema não tem solução, e o imbróglio continua. Ou seja, para todo problema há uma solução no setor elétrico: basta conhecer bem as regras.

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