19 set 2013

Dia Mundial sem Carro

Nós fomos ouvir quem entende do assunto e conversamos com o sociólogo Luciano Schmitz, que é professor de sociologia e recursos humanos da faculdade ESAGS. Ele fala das possíveis saídas para melhorar o transporte coletivo e conta sua experiência de viver quatro anos na Holanda.

No próximo domingo (22/9), diversos países vão celebrar o Dia Mundial Sem Carro, instituído na Europa no inicio dos anos 2000. A ideia é sensibilizar e mobilizar a comunidade em torno das questões relacionadas à mobilidade urbana, como saúde, qualidade de vida, poluição, orçamento e acidentes.

Aqui no Brasil, algumas cidades brasileiras adotaram a data em 2001, e desde então diversos municípios abraçam a causa. No País, o transporte público é alvo de críticas, há bastante tempo, e recentemente foi o estopim de manifestações populares em todo País. Na lista das queixas mais frequentes incluem-se as altas tarifas das passagens, veículos em más ou péssimas condições, demora na espera da condução e superlotação.

Em São Paulo, maior cidade do Brasil, faltam linhas e sobram passageiros. E a solução paliativa do prefeito Fernando Haddad, em destinar uma faixa exclusiva para ônibus, vem dividindo opiniões. Quem tem condições de comprar e manter um carro não abre mão do conforto, que está longe de ser oferecido nas conduções coletivas. Com certa razão, afinal, os passageiros que precisam desses meios de transportes reclamam que não aguentam mais serem levados como cargas.

O problema não se restringe a São Paulo e ao Brasil. Outros países também sofrem com a quantidade elevada de veículos nas ruas. A diferença é que alguns encontraram soluções mais eficientes e benéficas a todos, como na Holanda, referência mundial em mobilidade urbana.

Diante desse cenário, o que seria ideal, prático e objetivo implementar no Brasil? Nós fomos ouvir quem entende do assunto e conversamos com o sociólogo Luciano Schmitz, que é professor de sociologia e recursos humanos da faculdade ESAGS. Abaixo, ele fala das possíveis saídas na melhoria do transporte público e conta sua experiência de viver quatro anos na Holanda.

A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) divulgou que só em 2012, foram comercializados 3.643.421 carros, um aumento de 6,11%. O crescimento deveu-se a redução do IPI. Nesse mesmo período, o número de ônibus emplacados caiu de 34.944, em 2011, para 29.716 em 2012. Eles chegaram ao chocante resultado de que entram 122,3 novos carros na rua para cada novo ônibus circulando. Ou seja, é muito carro e pouco ônibus na rua. Só melhorar o transporte público já resolve o problema?
Não há dúvida que precisamos de mais investimentos no transporte público de massa. Mas ao mesmo tempo, penso que não adianta investir nesse setor sem que se conscientize a população da necessidade de mudança de alguns hábitos, como não ir à padaria da esquina de carro, por exemplo. Infelizmente, essas mudanças vão contra uma tendência cada vez maior, que é a de busca pela comodidade, pelas facilidades e, sobretudo, a tendência ao individualismo. São esses aspectos que justificam, em boa parte, os números citados.

Recentemente, a prefeitura de São Paulo limitou uma faixa exclusiva para ônibus. Quem usa o transporte, gostou da medida. Quem anda de carro, desaprovou alegando que aperta ainda mais um espaço que já era reduzido. Em sua opinião, a medida foi boa? Podemos lembrar ainda a restrição dos ônibus fretados que o prefeito Kassab proibiu na capital e não resolveu nada.
Todas essas medidas serão paliativas se não investirem, definitivamente, na qualidade do transporte público, considerando também trem e metrô. Mas isso só funcionará se tudo estiver muito bem integrado. Além disso, é importante que as cidades construam novas calçadas e que estas estejam bem sinalizadas. E também, para que os cidadãos comecem a usá-las, é necessário investir em segurança pública. Dessa forma, é possível perceber como uma cidade é um organismo, onde, se uma parte não funcionar bem, certamente comprometerá todo o resto na questão da mobilidade.

Nesse ponto, diz que a Holanda é o país ocidental que mais usa a bicicleta no dia a dia. Cerca de 40% dos usuários de trem vão até as estações pedalando, pegam o trem, desembarcam e pedalam de novo até o trabalho. Desde os anos 70, a cidade reduz vagas e aumenta o preço de estacionamento para carros no centro. Outras grandes cidades também seguem essa tendência como a Cidade do México, Tóquio e Pequim. Você considera um bom modelo?
Morei na Holanda durante 4 anos e hoje percebo que lá pode ser, de fato, uma referência em mobilidade urbana. Como você bem disse, o holandês pega a sua bicicleta em casa e vai até a estação de trem pelas ciclovias, que aliás, são muito bem sinalizadas. Por sua vez, em algumas estações, já é possível encontrar estacionamentos totalmente automatizados, construídos especialmente para as bikes. Enfim, tudo isso facilita muito a vida e estimula as pessoas a usarem esse meio de transporte. Mas para atingir esse nível, o país contou com a topografia, que é totalmente plana. Além disso, um outro fator, talvez, tenha sido o mais importante: a educação. E quando se trata de educação, é preciso sempre levar em consideração que a mudança ocorre a longo prazo.

E seria viável nas grandes capitais brasileiras? Quais mudanças seriam necessárias?
O que está sendo feito em algumas capitais do Brasil, nesse momento, pode ser o começo de um longo processo de mudança. É claro que algumas cidades já adquiriram essa consciência e estão adiantadas nesse processo, como Santos (SP). Mas, de qualquer maneira, até que essas mudanças sejam incorporadas, é possível lançar meios para motivar ainda mais o uso das bikes. Ano passado, participei de um seminário sobre mobilidade urbana, realizado na PUC-SP, onde foi apresentado um modelo implementado na cidade de Lisboa. Lá, os portugueses que optarem pela bike, tem a “proteção” dos motoristas de ônibus. Como? Os ciclistas usam a mesma faixa do ônibus e os motoristas são orientados e treinados para darem sempre prioridade aos ciclistas. Os dados mostrados na apresentação demonstraram que boa parte da população tinha aprovado a ideia.

Acontece que, no Brasil, o carro ainda pode ser considerado um sinal de status e não como meio de transporte. Você concorda?
Penso que existe, sim, um relação bem estreita entre carro e status no Brasil. Mas não acredito que isso seja uma questão cultural, já que o carro proporciona muitas facilidades, independentemente da sociedade em questão. Acredito que o problema está mesmo na falta de investimento em transporte público, que obrigada as pessoas a escolherem os seus próprios veículos como a única forma de deslocamento.

Em particular, qual sua relação com o uso do carro?
Costumo usá-lo nos finais de semana. Mesmo assim, só quando realmente é necessário. Ando bastante a pé que, além de fazer bem à saúde, me permite planejar melhor meu tempo, pois não tenho que lidar com as eventualidades que o trânsito me impõe. No caso do transporte coletivo, é possível ler ou até mesmo descansar, após um longo dia de trabalho, por exemplo. Isto é, esse tempo para mim pode se tornar precioso. Mas só percebemos isso quando mudamos de hábito.

E você, concorda com as sugestões? O que acha que deveria mudar no Brasil?

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