30 nov 2012

Dia da Consciência Negra favorece discussões

O assunto é polêmico e gera debates intermináveis. Para comentar mais a respeito, convidamos o professor Wesley Ortiz, de Liderança e Inovação e Técnicas de Comunicação da STRONG/Fundação Getulio Vargas. Ele aborda especialmente a presença cada vez maior dos negros em cargos de alto escalão

Praça Palmares, em Santos, homenageia Zumbi dos Palmares

A data 20 de novembro está marcada, no Brasil, como o Dia da Consciência Negra e tornou-se feriado em diversas cidades no País. O motivo é a celebração do aniversário de falecimento de Zumbi dos Palmares, um dos líderes do Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, divisa entre Alagoas e Pernambuco. Ele ficou conhecido por lutar contra a escravidão no período do Brasil Colonial.

Embora a data esteja estabelecida na lei 10.639, do dia 9 de janeiro de 2003, causa polêmica quanto à necessidade de comemoração. A discussão se estende a outros setores, como em questões sociais e trabalhistas. Este ano, por exemplo, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), João Oreste Dalazen, assinou um ato determinando que todos os contratos de prestação de serviços no TST, fechados a partir do dia 20/11/2012, devem reservar 5% das vagas para afrodescendentes nas empresas.

Servidores públicos
Já o Governo Federal estuda criar uma lei para que os serviços públicos federais destinem 30% das vagas para negros. No mesmo eixo, há a possibilidade de criar incentivos fiscais para a iniciativa privada fixar metas de preenchimento de vagas de trabalho por negros.

Além disso, recentemente, estendeu a lei de cotas para institutos federais de ensino. A medida certamente vai impactar na continuidade dessas pessoas em cursos de ensino superior, como graduação e MBAs, e como consequencia a elevação dos cargos desses executivos.

O assunto é polêmico e gera discussões intermináveis. Para comentar mais a respeito, convidamos o professor Wesley Ortiz, de Liderança e Inovação e Técnicas de Comunicação da STRONG/Fundação Getulio Vargas. Confira abaixo.

Recentemente, o TST (Tribunal Superior do Trabalho) orientou que os prestadores de serviços devem reservar 5% das vagas para afrodescendentes nas empresas. O que você acha dessa decisão?
Não acredito que este seja o melhor caminho para a contratação de afrodescendentes nas empresas. Concordo com a reserva percentual de vagas apenas para inclusão de pessoas com necessidades especiais, que podem não ter as mesmas habilidades disponíveis como as outras no mercado de trabalho tradicional.

Isto porque a capacidade intelectual do ser humano não é medida através de raça, credo ou opção sexual, mas, de uma educação de base forte e consistente que permite tanto uma formação cidadã quanto profissional. É fato que a maior parte da população com menor renda e, portanto, com menos oportunidades no Brasil é composta pelos negros, entretanto, uma cota por renda familiar seria mais justa com a sociedade.

O governo estuda criar uma lei para que os serviços públicos federais destinem 30% das vagas para negros. No mesmo eixo, há a possibilidade de criar incentivos fiscais para a iniciativa privada fixar metas de preenchimento de vagas de trabalho por negros. Desta forma, o empresário não ficaria obrigado a contratar ninguém, mas seria financeiramente recompensado se optasse por seguir a política racial do governo federal, possivelmente nos moldes do programa Universidade para Todos, o Prouni. Qual a sua opinião sobre esses projetos e quais possíveis impactos nas empresas?
Sou contra porque estas leis ferem um dos princípios básicos da Constituição de que somos iguais perante a lei. Portanto, além de serem discriminatórias em sua essência tendem a acentuar ainda mais as diferenças entre os seres humanos. Não há negros ou brancos inferiores intelectualmente há, portanto, oportunidades diferentes dadas a cidadãos com renda menor ou maior, independentemente da sua condição racial. As universidades que não possuem cotas, por exemplo, não negam inscrições por credo ou raça, mas sim pelo desempenho do aluno nos vestibulares.

Com isso, acredito que o direcionamento das forças deveria ser em torno da melhoria da qualidade do ensino fundamental e médio nas escolas públicas e, desta forma, não precisaríamos de medidas adicionais de inclusão nas empresas ou universidades e, certamente, teríamos muitos grandes profissionais em postos importantes, independente da sua raça.

O que precisamos é de políticas públicas que favoreçam a inclusão a partir do desenvolvimento e capacidade intelectual de cada um. Não se trata de negar os efeitos nocivos de humanos escravizados, mas de ressaltar que uma sociedade justa não é aquela que reserva cadeiras, mas, que coloca o cidadão em igualdade de condições para lutar por seus direitos. Ou será que devemos direcionar o profissional à dúvida da sua capacidade intelectual? Então deveríamos reservar cadeiras para os judeus cujas famílias sofreram com o Holocausto e que se refugiaram no Brasil? Ou para os japoneses descendentes de famílias vítimas de Hiroshima? Ou devemos lutar juntos para dar condições de acesso à mesma formação e que vençam por seus próprios méritos?

Voltando nosso pensamento à resposta sobre os impactos nas empresas, acredito que esta lei permitiria que empresários mal intencionados preencham suas vagas com negros, porém, apenas para cargos inferiores, o que não necessariamente garantiria igualdade de direitos, ascensão financeira, educacional e especialmente evolução do inconsciente coletivo, mas, poderiam criar ainda mais conflitos ou taxações. Tal medida poderia deixar os negros mais uma vez taxados como operários ou então poderia tornar-se apenas uma forma para recebimento de incentivos fiscais e desvirtuaria o propósito positivo da lei.

Em sua experiência profissional, como você observa a contratação de negros nas empresas?
Na minha experiência profissional vi poucos negros contratados ou reconhecidamente promovidos para posições-chave ou de liderança nas empresas. Porém, acredito que exemplos como os do Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, que foi estudante de escolas públicas, cursou universidade Federal e hoje é o líder de um dos poderes da República e também do presidente dos Estados Unidos Barack Obama que são negros em posições de destaque no cenário nacional e internacional, certamente trarão consequências positivas para que os negros ocupem posições de liderança nas organizações privadas e públicas.

Há, certamente, mais do que questões de preconceito e raça envolvidas, mas, de falta de uma formação educacional consistente a pessoas com menor poder aquisitivo e que permita a estes profissionais a evidência em sua contratação e promoção.

Com a extensão da lei de cotas em universidades e institutos federais, estimulada recentemente pelo Governo Federal, vai influenciar nas vagas dos cursos de pós-graduação e MBA?
Certamente será muito positivo para a sociedade e encontraremos muitos alunos negros em cadeiras de Pós-graduação, MBA, mestrado, doutorado e que permitirão acesso aos cargos mais elevados e de destaque nas empresas. Estes exemplos multiplicados farão muito bem à sociedade e tenho certeza de que serão uma excelente ferramenta para combater preconceitos que infelizmente persistem em algumas pessoas ou segmentos sociais.

Também creio que a capacitação educacional aliada à experiência profissional são sempre fundamentais para o desenvolvimento da carreira. Porém, é importante destacar que a extensão da lei de cotas serve apenas como medida paliativa e temporária e que não deve se perpetuar.

Como disse anteriormente, é fundamental que tenhamos escolas públicas de qualidade que permita a alunos de baixa renda a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho e na sociedade. Assim como acontece nos Estados Unidos com as chamadas “ações afirmativas” nas quais algumas das mais reconhecidas universidades americanas recrutam os melhores alunos de escolas de baixa renda para ingresso em seus cursos. No Brasil poderíamos utilizar estas ações como benchmarking com as devidas adequações à realidade brasileira, mas que traga efeitos similares.

Na sua visão acadêmica e profissional, por que é necessário celebrar o 20/11? 
A comemoração tanto acadêmica quanto profissional é fundamental porque Zumbi dos Palmares, nascido nesta data e razão simbólica desta celebração, foi um dos grandes guerreiros a favor da liberdade dos humanos escravizados e é um marco histórico que não podemos nunca esquecer. Os grandes homens que lutaram por igualdade total de direitos e deveres devem sempre ser exaltados e lembrados para que seus exemplos sejam seguidos e que não esqueçamos nunca de que somos iguais e que só há uma raça, a humana.

Fique à vontade para comentar algo que não foi citado e que considere importante.
Quero apenas acrescentar que Martin Luther King é sempre lembrado por seu discurso no qual exalta o sonho de igualdade, liberdade, justiça e união de todos os povos com respeito às suas crenças, tradições e culturas. Mais do que apenas lembrar uma data como Dia da Consciência Negra, temos que utilizá-la também como um símbolo de igualdade entre os povos e de luta constante pela evolução da sociedade.

6 comentários

  1. Luiza disse:

    Acredito que o Sr. Wesley Ortiz esteja um pouco desatento quando se refere ao presidente dos E.U.A ao mesmo tempo que se opões a lei das cotas. É importante citar que o presidente Barack Obama foi um cotista e hoje está no posto que está pelos méritos pessoais, no entanto é fato que se as cotas não existisse nesse intermédio as conquistas seriam muito mais árduas assim como é para todos os negros, pobres e índios deste país e do mundo.

    Ressalto que o Sr. deveria ter acrescentado em seus argumentos que a lei de cotas não favorece apenas os negros, mas sim os alunos de escola pública (idependente de sua cor) e índios.

    Concordo com o Sr. quando afirma que a medida deva ser caracterizada no ensino fundamental e médio, mas o fato é que temos uma reparação imediata a ser feita como plano de contingência para a diminuição da desigualdades deste país, e talvez quando estivermos na sonhada e efetiva equiparação social, talvez possamos ter argumentos como este do Sr. Mas agora, para os que estão no alto da pirâmide é muito conveniente ter argumentos e contundências morais falidas como a do Sr.

    Obrigada.

  2. Juvenal Ferreira da Silva disse:

    Substimar qualquer ser vivo na face da terra, é o mesmo que não reconhecer a existencia divina. Os homens são todos iguais, a diferença está na massa cinzenta.

  3. sergio medeiros disse:

    Concordo com a tese de que devemos meljorar o ensino em todos osniveis. Popularmente falando”se o sfa esta com mal cheiro, jogue-o fora”. Para que saber qual a causa do mal cheiro? Da trabalho. Tomamos a iniciativ do menor esforço, alias, tudo neste meu Brasil juvenil,caminha neste sentido. Mãoé a toa que o Brasil esta regredidndo em todas as areas. A meritocracia foi deixada de lado, o bom agora é o ruim, ixste uma inversão de valores, a consequencia sera seria.

  4. Denires Medeiros disse:

    Está de parabéns o Sr.Wesley Ortiz, concordo plenamente. Cada um deve conquistar seu espaço independente de raça, cor ou credo. O que nosso país precisa mesmo e de escolas públicas com melhor ensino, como era no passado.
    A capacidade intelectual de um ser humano não é valorizado pela cor da pele.

  5. Olindina Aparecida de Souza disse:

    Concordo que uma pessoa deva trabalhar em uma empresa , se tiver capacidade para assumir o cargo pretendido, mas também sei que se tiver duas pessoa, uma branca e uma negra , com capacidade de assumir o cargo, a escolhida será a branca.O preconceito ainda existe e muito.Quanto as cotas estudantis, concordo que tenha que ser melhorado e muito, o ensino nas escolas públicas e federais, para que os jovens que queiram estudar e não tenham condições, consigam ter formação melhor e conseguir cargos melhores.
    Nos restante concordo com a Sra.Luiza.

  6. helena hauck disse:

    Sempre tenho pensado nesse problema. E estou encantada com o modo tão claro que o Sr Wesley consegue explicar seu ponto de vista que vem de encontro ao que penso sobre o assunto sempre sem conseguir me explicar.Todos somos da raça humana mesmo eu sendo indígena ,ele sendo europeu o outro negro o que deveria valer é quem deixou de jogar bola no campinho pra entrar de cabeça nos estudos e ter boas notas na escola.

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